Isaias Ribeiro



Mourão

Japaraíba para mim é uma das melhores cidades que eu já conheci: povo pacato, hospitaleiro apesar de um pouco desconfiado, de fala mansa, muito bom coração. Dizem que só de aguentar o “Reinaldo Mendonça” todos os dias já é uma façanha. Dizem também que é por causa dos familiares distintos do Reinaldo, mas não é verdade. Reinaldo é filho da terra e todos teem por ele muito carinho. E segue a vida. 

Conheci outro dia o senhor Mourão, esposo da “Nhá Bela”. Primeiro dia que fui em seu sítio, já pros lados da “Barra do Melo”, quase município de Santo Antonio do Monte, se já não o for, fui recebido de maneira engraçada e eu passo a vocês o diálogo, como se deu. 

Chegando lá, pensei que o senhor que estava postado à porta da sala fosse o senhor Mourão. Mas na verdade, aquele homem grisalho, de roupa em desalinho, chapéu na cabeça, coisa de 70 anos aproximadamente, era o Mourão Junior... filho do seu Mourão. Ante a minha saudação, foi buscar o pai. 

Ele chegou mansamente, desconfiado, perguntando se eu era do governo ou parente distante.

- Se for de paz se assente, filho. Se não for me poupe o esforço de sentar porque a coluna já não aceita qualquer oferta.
- Boa tarde, seu Mourão. Isaias meu nome. Na verdade eu sou da polícia, mas gosto de escrever histórias, e me disseram que o senhor tem muitas. Por isso vim aqui amolar o senhor.
- Já amolou. Eu estava dormindo e você me acordou com esse carro barulhento seu, com a cachorrada vindo atrás de você com coisa que você é importante.
- Não sou importante. Queria só ouvir algumas histórias do senhor.
- Notei, notei... Se você fosse mesmo importante, você não vinha. Você mandava alguém vir, que é como gente importante faz. Mas me conta que história você quer ouvir. 
- A história que o senhor quiser me contar, seu Mourão.
- Bom. Acho que não quero te contar história nenhuma, que eu não gosto muito de gambé, mas já que você veio até aqui, fica feio não lhe oferecer alguma coisa pra encher seu bucho e te contar umas “cabebas” (histórias) da vida que é pra você ir embora contente. Ás vezes é bom a gente ter alguém pra conversar, até mesmo se for um “cara de tacho” como tu!

O Mourão filho logo veio ao meu ouvido dizer que o pai chama todo mundo de cara de tacho, que não era pra ofender. Era só pra observar se a pessoa fica zangada ou não. Se se ofende com um nomezinho a toa desse, não merece ouvir o que ele tinha pra contar.
- Isso lá é jeito de receber as visitas, pai? Disse o filho ao seu Mourão.
- Visita vem visitar, não fica pedindo coisas que nem esse sujeito aí, que já chegou pedindo “zamba” (assunto). Vi logo que não era jornalista. Jornalista vem com radinho (gravador), papel, caneta no meio dos dedos, que nem aquele ‘crioulo’ da rádio (Luis Francisco da Veredas) que eu vi lá em Arcos entrevistando o Baiano (então, prefeito na cidade de Arcos). Onde tu vai anotar as coisas meu filho?
- Eu gravo as histórias no celular, seu Mourão. Aperto essa tecla aqui e ele começa a gravar as histórias que as pessoas me contam.
- Grava tudo?
- Sim.
- Já gravou o que a gente conversou até aqui?
- Já.
- Então você é dos meus. Só podia ser da polícia, mesmo. Se você quiser me processar por eu ter te chamado de gambé, você pode?
- Sim.
- Então se adianta pra sentar na cadeira que a “Nhá Belinha” vem trazendo um queijo e um café pra você, coisa fina, aqui da roça mesmo, pra você saborear e esquecer qualquer tipo de mágoa antiga.
- Claro, seu Mourão. Tem veneno no queijo não? né?
- Tem não.
- Bom então.
- Vai ser o primeiro policial a sair do meu sítio com o que veio buscar.
- Amigos?
- Amigos.
- O senhor tem um português muito correto, sabe usar bem as palavras. Diria até que o senhor é um tanto quanto malicioso no vocabulário. Qual a profissão do senhor?
- Advogado.

Segue nas próximas edições, as histórias do seu Mourão

Histórias que o povo conta...

IJR

Luz da Chapada

A menina nasceu em berço pobre, muito pobre. As circunstâncias do seu nascimento foram as piores possíveis.

Sua mãe foi entregue ao pai pelo avô, visto necessidade de alimentação mesmo. Ela veio de longe, filha de escravos recém libertos mas que não tinham dinheiro, não tinham trabalho, não tinham para onde ir. A fome era uma realidade muito presente.

O avô praticamente entregou as filhas para quem quisesse levá-las, mesmo com o protesto sentido da avó e demais parentes que não queriam de forma alguma aquele desfecho. Que ficassem juntos. A família foi dissipada.

Os irmãos (homens) foram levados até a fazenda de Armânio, a fim de ingressarem na lavoura de café, coisa mais rentável na época. Assim a mãe foi entregue ao pai.

Mas o improvável aconteceu. Ao assumir a menina como esposa, o homem a amou. Amou tanto que cercou-a de muito afeto e carinho. Chego até a pensar que nasceu ali amor sem medida. Comprou a ela roupas, comida, ferramentas e outras coisas. Levantou casa. Embora humilde, constituía abrigo e proteção para a família.

A primeira gravidez tornou-se assunto de família e a felicidade era brindada por todos os familiares e amigos. Sobreveio ao pai grande aflição devido a doença que se abateu sobre ele: - doença de chagas. O coração tornou-se inchado e trabalhava com muita dificuldade, com sofreguidão. A mãe assumiu trabalho e buscava também sustento para todos. E o pior também veio a ocorrer.

A mãe contraiu tuberculose e foi levada para casa afastada no distrito, longe de tudo e de todos, visto a notícia de que esta doença matava não só o doente mas toda a família. A mãe partiu.

A menina infelizmente também ficou doente. Uma tristeza. Sem cuidado e sem os pais, a criança veio a falecer. Dizem que um homem de outras bandas, corajoso, de alma boa, vendo a situação da menina largada na entrada da igreja, por ordem do padre, tomou a menina nos braços, colocou-a sobre o cavalo e rumou, enterrando-a em lugar incerto, não sabido. De lá, colocou coisas suas sobre o alforge do cavalo e partiu, prometendo nunca mais aportar por estas bandas. 

O pai ficou extremamente triste. Extremamente triste. Disseram que foi suicídio. Aliás, um suicídio anunciado, visto as condições de saúde e de cuidado que o homem estava recebendo. Morreu por inanição. Morreu de fome, de tristeza, de solidão. Dizem que morrera pela manhã. Que logo após sua morte, uma copiosa chuva desceu sobre o lugar.

Chuva torrencial, com muito vento, com alguma destruição. Logo após, calmaria intensa. 

A noite, como que por mágica, um grande clarão subiu por detrás da montanha e iluminou a noite. Num instante, entretanto, desapareceu. 

Desde então a luz foi vista em muitos e diferentes lugares nas proximidades do Pântano, nas proximidades da área rural existente entre Lagoa e Luz. 

Sempre para os lados da Chapada, vindo de lá ou indo, a luz já acompanhou tratoristas, motoristas, caminhoneiros, motoqueiros... Já foi vista por sitiantes, fazendeiros e donos de ranchos. Já foi vista inclusive por pessoas que passavam por estas bandas montadas em lombos de burro e até mesmo a pé. Pessoas sérias, idôneas, já contaram muitas vezes acerca da aparição de tal luz, confirmadas sempre.

Certa vez mantive contato com três pessoas diferentes quase que ao mesmo tempo (mensagens por celular), tentando conferir se estavam mesmo, as três a falaram a verdade, sendo que uma falou sobre a outra, como se testemunha ocular fosse, uma da história da outra. Qual não foi a minha surpresa ao ver que até mesmo nos pequenos detalhes, mínimos detalhes, as histórias eram confirmadas magistralmente.

A Luz da Chapada já assustou pessoas. Também já guiou outras na busca por médicos, remédios e socorro. 

Mas a origem da história (ou lenda) da “Luz da Chapada” a qual mais me chamou a atenção foi esta. “Dizem os antigos que a luz é a alma do pai em busca da filha. Quando encontra uma alma boa, incide sobre ela, pensando ser a alma da filha”. 

Histórias que o povo conta... 

IJR/